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'Mais de 300' cães: por que família assumiu a herança de resgates deixada por veterinária que morreu em show no RS

03/03/2026 01h00

A família Moraes, em Porto Alegre, mantém vivo o legado de Alice Moraes, veterinária que resgatou "para mais de 300" cães antes de morrer aos 27 anos em 2022.

Atualmente, 24 cães vivem na casa da família. Sem a rede de Alice, a maioria dos resgatados acaba ficando com eles por apego.

Alice sonhava em criar um "SAMU dos bichos", um sistema organizado de resgate, tratamento e adoção, com o pai como auxiliar.

A jovem morreu após passar mal em um show. Amigos e familiares relataram negligência e demora no atendimento médico.

Cinco pessoas foram indiciadas por omissão de socorro, mas o MPRS arquivou o caso em 2024, sem "nexo causal" ou culpa comprovada.

A conta ninguém consegue fechar com exatidão. O que Angela Moraes palpita é que foram "para mais de 300" cães resgatados pela sua filha enquanto ela estava viva. Alice Moraes morreu aos 27 anos, em 2022, após passar mal durante um show na Capital. Segundo testemunhas, houve negligência e demora no atendimento. (Relembre o caso abaixo)

Mães, ninhadas inteiras, animais atropelados, cachorros achados amarrados em árvores, bichos de amigas que precisavam de ajuda. Muitos animais entravam no local, eram cuidados, castrados, vacinados, e, algumas vezes, conseguiam um lar. Hoje, são 24 cães morando na casa da família Moraes, que continuou com a tradição da Alice.

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Antes da tragédia, o fluxo das adoções tinha um motor muito próprio: a Alice. Comunicativa, expansiva, insistente quando necessário, ela fazia uma publicação nas redes sociais e a história do animal se espalhava "igual pólvora".

A família assumiu a herança deixada pela veterinária para manter vivo tudo o que ela acreditava.

Contudo, desde 2022, o caminho dos resgates mudou. Sem a voz e a rede dela, a maioria acaba ficando com a família. Quando percebem, o animal já fez parte da rotina e já escolheu um canto da casa. E, quando isso acontece, fica.

Foi assim com a Estrela, resgatada há pouco. O mesmo aconteceu com a Betânia, que chegou pelas mãos de Andreia, irmã de Alice.

Para a família, o apego fala mais alto, já que cada cachorro ganha um nome e um cantinho na casa.

A Matilda suspira quando deita no ar gelado, em um agradecimento audível. Marley é muito parecido com o cão do filme "Marley & Eu". O Carvão toma iogurte na mesa de manhã, ritual herdado de Alice.

Já Ferrugem late como uma "corneta". E o mais recente chegado ganhou o nome de Orelha, em homenagem ao cachorro comunitário Orelha, morto após ser agredido na Praia Brava, no Norte de Florianópolis.

Os pais ainda enxergam neles a presença de Alice e cada novo resgate parece também uma forma de continuar o que ela começou.

Desde o início da faculdade em Medicina Veterinária, que ingressou em 2016, Alice tinha a ideia de criar um serviço de resgate e prevenção para animais em situação de abandono, uma espécie de "SAMU dos bichos".

A jovem, que estava prestes a se formar veterinária, não queria um "depósito de cães", mas sim um sistema organizado em que cada resgate fosse castrado, vacinado e acompanhado até a adoção.

A família comprou a ideia e, aos poucos, a casa foi se adaptando ao projeto. Vieram canis arejados, rotina de resgates, cuidados, castrações, vacinação e até um "pequeno hotel para cães de vizinhos" dentro do terreno.

No projeto, Alice sonhava em trabalhar ao lado do pai, que planejava se aposentar para ser seu auxiliar.

"O projeto era virar funcionário da Alice. Eu ia fazer um curso de tosa, para dar banho, de adestramento. Ela ia ser minha chefe. Eu também sou muito cachorreiro, então ia ser uma realização também minha de trabalhar com a minha filha", conta André.

Os 24 cães vivem entre a casa e canis reformados, com telhado reforçado, ventilador e caminhas. Não há correntes. As portas ficam abertas. Eles entram e saem, disputam sol e ar-condicionado. À noite, parte é recolhida para não incomodar a vizinhança, outra parte, sobe para a área fechada.

"A gente separou pelo barulho. Se faz muito barulho, a gente não deixa eles irem para o fundo para não incomodar a vizinha", explica Angela.

A rotina é sagrada:

Desde pequena, Alice parava na rua para dar comida, afago e colo aos bichinhos. Ainda morando em apartamento, ela já tinha uma "turma de quatro patas". Em 2015, a família ganhou o Carvão, um filhote que adoecera logo na primeira semana.

A alta do hospital veterinário, no dia 23 de dezembro daquele ano, foi um ponto de virada: "Agora nós temos de nos mudar pra uma casa", decidiram.

A mudança coincidiu com outra necessidade: a mãe de André, pai da Alice, morava sozinha em “uma zona onde tem muito cachorro solto e sem cuidado”. Era o cenário perfeito para o que viria a seguir.

Segundo a família, a cada ida e volta da faculdade, Alice resgatava um. Além disso, a jovem tinha uma característica marcante: dava prioridade a fêmeas, muitas grávidas ou recém-paridas. No fundo do terreno, ergueu um canil especial "para mamães com seus bebês".

E, assim, a família tenta manter o norte. Eles ainda divulgam adoções com amigos, mas admitem: se demora, o apego vence e o cão fica.

Entre ninhadas, cães de amigos, pedidos de vizinhos e resgates de rua, nas contas da mãe "passaram de 300" os animais que Alice acolheu, tratou, vacinou, castrou e encaminhou.

Para isso, a família conta que ela tinha uma habilidade. Chegava, agachava-se, estendia a mão, e até três pitbulls fechados em um terreno vinham lambendo, como velhos conhecidos.

Em 16 de julho de 2022, a família perdeu Alice. A médica veterinária morreu após um mal súbito em um show da cantora Luisa Sonza.

Ao todo, cinco pessoas foram indiciadas por omissão de socorro no mesmo ano. No entanto, o Ministério Público do RS arquivou o caso em 2024 por não haver "nexo causal (quando ação ou omissão de alguém não foi a causa do resultado) nem culpa dos profissionais no atendimento, considerando que a morte da vítima foi uma fatalidade, sem negligência, imprudência ou imperícia comprovadas".

O dia do show

Pouco mais de 30 minutos após o início do show de Luisa Sonza no dia 16 de julho de 2022, Alice informou a uma amiga que iria ao banheiro. Contudo, a jovem teria enviado uma mensagem pelo celular por volta de 2h dizendo que tinha passado mal e estava na ambulância.

"Eu fui correndo e encontrei ela lá, desacordada, sentada ao lado da ambulância em uma cadeira branca, deitada. Eu questionei a enfermeira como ela tinha chegado ali, e a enfermeira me relatou que ela própria, a enfermeira, tinha escrito a mensagem. (...) Eles me falaram que tinham encontrado ela desacordada no banheiro", contou a amiga, na época do caso.

Camila afirmava que o atendimento foi realizado de forma negligente e demorada. "A gente foi muito maltratada nas três horas que a gente esteve ali, clamando socorro pela Alice. Eu comecei a questionar o que eles tinham feito, se eles tinham dado alguma medicação, se eles tinham dado água, e ela disse que eles não poderiam ajudar, não poderiam atender ela e me orientaram a chamar um Uber", contou.

Irmã da vítima, Andreia Moraes, que também estava no show, afirmou que Alice não tinha recebido nenhum tipo de remédio. A equipe de socorro teria dito que a jovem não poderia ser medicada por ter sido submetida a uma cirurgia bariátrica e que precisava ir para casa dormir.

Contudo, ao perceber a perda de sinais vitais de Alice, a irmã chamou outra vez a equipe médica. Só então eles teriam levado a jovem para dentro da ambulância e tentado um procedimento mais eficiente.

"Ela já estava roxa, com a boca roxa, já não tinha nenhum tipo de resposta. Eles me tiraram de dentro da ambulância para começar as manobras de ressuscitação. Depois, sei lá, de uma meia hora, chegaram duas ambulâncias: uma da mesma empresa e outra do Samu. Já tinha chegado polícia, enfim, mas ela já tinha ido a óbito", afirmou a irmã na ocasião.

O caso foi comentado pela cantora Luísa Sonza, que manifestou pesar pela morte da fã. "Desejo muita força a família e espero que o caso seja apurado o mais rápido possível", escreveu em uma rede social.

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